
Espelhados
Stickers de aspeto metalizado com um acabamento espelhado.
Taylor Barron, aka @tbeardraws, move-se sem esforço entre ilustração, murais, design de personagens e projetos pessoais. O resultado são trabalhos que, à primeira vista, parecem vibrantes e divertidos, mas que escondem camadas de reflexão sobre identidade, vulnerabilidade e poder.
Nesta conversa, fala-nos do processo instintivo com que trabalha, do simbolismo sensual e da razão por que celebrar o corpo pode ser um ato silencioso de resistência.


Para Taylor Barron, decidir que suporte dar a uma ideia raramente é uma escolha calculada.
"O meu processo é talvez mais intuitivo do que outra coisa", explica. "Muitas vezes é guiado pelo meu estado emocional do momento. Um cliché de artista, eu sei."
Em vez de prender os conceitos a um formato fixo, deixa que seja a emoção a guiá-la. "Gosto de mudar de técnica consoante o meu estado de espírito. Ajuda sobretudo quando me sinto estagnada. Algumas técnicas funcionam melhor para certas ideias, mas tento não me fechar demasiado numa caixa."
Esse instinto emocional atravessa também os temas que explora. Por baixo das cores vibrantes, das composições divertidas e dos toques de absurdo, há explorações da identidade, do corpo e da vulnerabilidade emocional. O humor torna-se uma ponte para território mais sensível. "Embora queira abordar certos temas com sensibilidade, acho que também é importante quebrar o tabu à volta deles", diz Taylor. "Trazer leveza e fantasia a estes temas é importante numa sociedade que caminha para o puritanismo."
E acrescenta: "Também sou simplesmente alguém que usa o humor e a cor como mecanismo de defesa para lidar com o mundo intensamente stressante e cruel em que vivemos."




Gerir a visibilidade online acrescenta outra camada de complexidade. Taylor Barron partilha tanto projetos de livros infantis como imagens sensuais, por vezes NSFW, uma amplitude que pode surpreender."É algo em que tenho pensado muito ultimamente", diz. "Para mim é duplamente complicado, porque grande parte dos meus projetos são livros infantis."
À medida que os espaços online se tornam mais restritivos, dá por si a avaliar constantemente o que faz sentido partilhar. Ainda assim, não tem dúvidas. "Quero lutar contra a censura, por isso tento andar no limite, partilhando o que acredito que continua a ser adequado para o público em geral."
A quem descobre o trabalho dela pela primeira vez, espera que a primeira sensação seja de leveza, seguida de reflexão. "Espero que o meu trabalho deixe nas pessoas uma sensação de fantasia e leveza", diz, "mas também curiosidade para explorarem a relação que têm consigo próprias, com o corpo e com o mundo."
Numa colaboração NSFW recente, Taylor Barron quis contrariar as expectativas. Os autocolantes estão muitas vezes associados ao humor, mas ela preferiu seguir uma direção mais séria e sensual.
"Quis ir pelo caminho oposto e criar algo um pouco mais sério e sensual", explica.
As expressões faciais tornaram-se centrais nessa intenção. "Acho que as expressões faciais podem mesmo fazer ou desfazer uma peça. Tentei criar uma variedade de emoções subtis nas figuras." Para tornar as imagens mais acessíveis e ligeiramente censuradas, recorreu a metáforas visuais. "Gosto de incluir trocadilhos visuais, por exemplo lamber uma espada, as velas a derreter ou até a moldura de renda em forma de vulva."
A série tem um ar cerimonial, com composições simétricas, corpos emoldurados, velas, espadas e espelhos. A estética medieval e os subtons religiosos têm um papel central.
"Quis explorar a era medieval e toques de religião nesta coleção", diz Taylor. "Fascina-me a justaposição extrema entre puritanismo e sexualidade. Adoro contrastes temáticos e visuais."

A devoção religiosa, com rituais e simbolismo próprios, pareceu-lhe uma estrutura natural para explorar a intimidade. "Na religião há tanta cerimónia e devoção que parece quase natural trazer isso para um contexto sexual." No ponto mais forte, acredita, a sexualidade é um espelho da adoração. "Acredito que, no seu melhor, a sexualidade é uma forma de adoração e de desejo intenso que gera ligação."
Quando imagens íntimas passam para formatos do dia a dia, como autocolantes, o significado muda subtilmente. Taylor Barron vê nisso uma oportunidade, tanto cultural como pessoal.
"Espero que isto leve a uma maior abertura na sociedade em geral", diz, "mas também é uma forma subtil de sinalização para certas comunidades."
Como membro da comunidade LGBTQ+, lê muitas vezes identidades e valores através de pistas visuais. Um portátil ou uma garrafa de água cheios de stickers sobre antifascismo ou libertação sexual podem gerar um reconhecimento imediato. "O mais provável é que me identificasse com essas pessoas ou, pelo menos, que tivéssemos uma conversa interessante."

Para Taylor Barron, tornar a arte acessível em diferentes formatos é essencial para combater o isolamento e o anti-intelectualismo. Num clima cultural que considera cada vez mais conservador, a arte centrada no corpo parece especialmente urgente.
"A sociedade está, de forma geral, a caminhar para o puritanismo e o conservadorismo", diz. "Por isso, agora mais do que nunca, acho importante exprimirmo-nos, a nós e aos nossos corpos."
Para ela, o feminismo passa por desafiar a ideia de que os corpos, sobretudo os das mulheres, são inerentemente sexuais, e ao mesmo tempo defender a sexualidade como um fenómeno humano natural. Num mundo que mede o valor pela produtividade, o próprio prazer pode ser radical. "Num mundo capitalista em que a produtividade é a única medida do nosso valor, até pequenos gestos de desfrutar e celebrar o nosso corpo podem ser considerados resistência."
Pesquisar acessórios medievais tornou-se uma das partes preferidas do projeto. "Adorei incorporar estes elementos de uma forma mais ou menos moderna", diz. O fascínio não ficou pelo estúdio. Depois de terminar a série, mascarou-se de cavaleiro na passagem de ano, com direito a um capuz de cota de malha inspirado numa das ilustrações dela.
Para Taylor Barron, a arte não fica presa a uma superfície. Passa para o dia a dia, para a roupa, para símbolos e conversas partilhadas, onde a intimidade e a expressão continuam a evoluir.
Obrigado pela conversa, Taylor! Para acompanhares a Taylor, passa pelo Instagram dela, @tbeardraws.
